segunda-feira, 2 de março de 2015

O Concorrente: um reality show não muito distante da nossa realidade




Ainda não li muitos livros de Stephen King, mas os poucos que li já me deram uma noção de seu estilo. Em suas histórias o bem prevalece, mas não significa que os personagens bons (mesmo os principais) tenham que sobreviver e nem que o final será necessariamente feliz. Em O Concorrente (publicado com o pseudônimo de Richard Bachman), King deixa mais clara essa posição.

A história mostra um futuro alternativo ambientado no ano de 2035 em meio a um mundo em que a desigualdade social é bastante acentuada. O ar puro é coisa rara e comercializado para poucos que têm condições de pagar. O maior entretenimento da população é assistir aos inúmeros programas da GratuiTV, uma rede poderosa de televisão que controla o mundo. Seus programas se caracterizam por serem competitivos e com altos prêmios em dinheiro, porém, os participantes colocam suas vidas em perigo, numa espécie de arena romana on line 24 horas por dia. Todos os participantes, sem exceção, são oriundos das classes mais pobres.

Um desses programas chamado O Foragido consiste em que o participante deve se manter vivo por um período máximo de trinta dias para ganhar o prêmio máximo em bilhões de dólares. Cada dia que permanece vivo, ganha certa quantidade de dinheiro que vai para os familiares. Detalhe que qualquer pessoa - civil ou policial - pode ajudar na captura do jogador e até matá-lo se for necessário. Aliás, o objetivo é matá-lo como se ele fosse um criminoso.

É nesse contexto que conhecemos Ben Richards, um homem normal e desempregado, que para salvar a vida da filha que está debilitada por uma doença e sem recursos para ser tratada, entra nesse programa. Contudo, Ben é um homem inteligente, perspicaz e sarcástico que não se ilude com o sistema e até o desafia, seja na postura nos trabalhos que teve (por isso, está sempre desempregado), seja nas conversas com os organizadores da GratuiTV com quem conversa antes de começar "o jogo." Sim. Ben tem consciência de que tudo é um jogo. O sistema é um jogo da vida humana, a TV seu reflexo.

A linguagem do livro é fácil e rápida, porém, é de uma acidez e ironia, com termos escrotos, sem papas na língua. É uma maneira de nos mostrar a realidade nua e crua, em que o mundo e as pessoas que vivem nele são perversas. Somente quando são colocadas numa situação deveras problemática, no lugar do outro, é que podem experimentar certa solidariedade. Uma visão de um mundo egoísta, irracional, em que as pessoas se divertem em assistir a desgraça alheia, insensíveis às necessidades de outros indivíduos considerados inferiores a elas. O poder da mídia e sua capacidade de manipulação das mentes e distorção dos fatos é algo brilhantemente demonstrado nesta história.

Embora a época seja futurista, o enredo não deixa de ser atual e não tão diferente com o que acontece nos dias de hoje. Vemos como a mídia consegue nos manipular e incitar opiniões (se é que se pode chamar de opinião) favoráveis à sua posição. Deixamo-nos entorpecer por um sistema opressor, que exclui aqueles que não podem aderir ao capitalismo, à globalização e compactuamos com essas ideias. O pior é que agimos dessa forma inconscientemente em nossos atos do dia-a-dia.

A mensagem do livro talvez seja um alerta. Se não prestarmos atenção, caminhamos para um futuro como esse em que vidas humanas destroçadas serão a próxima atração para os telespectadores. Um retorno ao tempo dos gladiadores.

OBS: Este livro inspirou o filme O Sobrevivente, estrelado por Arnold Schwarznegger. Mas a história tem muito pouco a ver.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Bom de "O Lado Bom da Vida"





Um livro que consegue nos passar uma mensagem otimista sem a pretensão de fazê-lo. É assim que me senti depois de ler O Lado Bom da Vida, autoria de Matthew Quick.

Conta a história de Pat Peoples, um ex-professor de história que vai morar com os pais após ficar confinado numa clínica psiquiátrica devido a um trauma. Ele tenta entender os motivos que o levaram a ser internado e afastá-lo de sua esposa, Nikki, por um período que ele julga temporário, o qual chama de "tempo separados." Pat acredita que está apenas vivendo uma história de filme e que, no fim, acabará tendo o seu "final feliz."

A narrativa é construída em primeira pessoa no tempo presente sob a visão do personagem, numa forma simples e bem elaborada de mostrar as diversas situações pelas quais passa. É um ponto de vista fragmentado, complexo, por vezes, absurdo, numa tentativa de reconstruir suas lembranças perdidas. O leitor se vê envolvido no mistério que ronda a vida de Pat tentando junto com ele entender o mundo que o cerca. Mostra-nos que a loucura e a normalidade andam de mãos juntas em situações do cotidiano. Afinal, quem pode dizer que é realmente normal?

Além de mostrar a instabilidade mental de Pat, também vemos a forma inusitada como os outros personagens do livro lidam com seus próprios dramas: o humor do pai que é afetado pelas vitórias ou perdas do time de futebol americano pelo qual torce (inclusive é a única coisa que faz com que converse com o filho); Tiffany, vizinha de Pat e cunhada de seu melhor amigo (também sofre de um distúrbio mental), mantém amizade com o protagonista, mas, no início, só interage com ele quando correm juntos, sem conversarem.

Há outros personagens como a mãe, o irmão e o melhor amigo, que tentam interagir com o protagonista sem revelar muita coisa do que lhe aconteceu. A mãe, por exemplo, chega ao ponto de esconder as fotos de casamento do filho para evitar perguntas sobre Nikki. Já o terapeuta de Pat, doutor Cliff, é uma figura interessante que procura "entrar" nas fantasias de seu paciente para tentar ajudá-lo.

A narrativa consegue ser profunda, mas não cansativa. Há uma leveza em sua construção que foge dos clichês. É lenta, mas é um ritmo que a própria história pede.

Por mais que, de certa forma, através do protagonista o autor brinque com o conceito de "lado bom das coisas", de forma até exagerada, irritante, (talvez para nos convencer que  nem tudo são flores como Pat acredita), é impossível não nos identificar com o personagem e torcer para que, de fato, tenha seu "final feliz".